Sobre a pandemia e a Educação ...
O que a educação tem com tudo isto? Quais os
efeitos da quarentena na educação pública? Como estão nossos alunos? Como vãos
os pais? O que a sociedade espera de nós? Como a sociedade tem visto a educação
e os seus profissionais? Quem são os heróis? Quem vai consertar a sociedade
depois de tudo? Como estão as escolas para quando for necessário o retorno?
Como estamos nos preparando para o fenômeno “pós-pandemia”? Que currículo
teremos? Que Projeto pedagógico estamos pensando? O que será de nós? O que
farão de nós professores?
Desde que a Organização Mundial da Saúde – OMS
declarou estarmos vivenciando uma pandemia, venho acompanhando diversos curtas
com mensagens altruístas para o enfrentamento ao isolamento social e na maioria
deles em algum ponto, a educação é citada para dizer que somos a esperança, mas
em nenhum momento a nós é atribuído o título de heróis.
Em momento algum há um gesto de carinho para
conosco. Ninguém diz que seremos nós, os professores que irão ter a grandiosa
missão de reorganizar a sociedade, a partir da sensibilidade que nos é própria,
de “sermos psicólogos”, cuidadores, amigos, assistencialista e formadores, das
gentes que retornarão ao espaço privilegiado do saber, do ser e do fazer.
Porque os estudantes, certamente não voltarão os mesmos, seus desejos serão outros
que não os mesmos que tinham até o dia da cisão forçada. Eles virão mais
sensíveis, mais brutos, mais conectados, mas descrentes da escola, pois nela
não há investimentos que de fato atendam seus velhos/novos anseios, seus reais
necessidade.
Este imensurável desafio, é imposto a nós sem
nenhuma preocupação com o nosso estado, seja emocional ou de preparo
profissional que nos capacite para o incerto que está por vir.
“Lives, “webnários”, “webconferências”, reuniões
remotas. Neste novo tempo, estas iniciativas são, de fato, muito valiosas, mas
“a corda que muito estica uma hora quebra”. Todos os dias ouço “não aguento
mais tantas lives!”, É claro que diante do contexto, esta foi e ainda continua
sendo uma saída encontrada para que nos mantivéssemos de alguma forma mantendo
nossa identidade docente, nossos pertencimentos, mas necessitamos mais.
Precisamos também nos “desligar” e viver o “luto”, o silêncio, a quarentena.
Aprender a nos respeitar com responsabilidade.
Aulas remotas, entrega de kits pedagógicos,
montagem de vídeos tutoriais, elaboração de atividades complementares, atendimentos
no telegram, classroom, Puxa! Aulas show! Nossa, como é importante tudo!
Preciso dizer sem nenhuma preocupação em parecer prepotente, “Nós somos o máximo!
” Ninguém faz o que fazemos. É muita criatividade dos professores para manter
vivo a arte do aprender, do ensinar e do conhecer. Porém é importante pontuar
que na faculdade não aprendemos gestão cultural, artes cênicas, produção
gráfica ou construir roteiros artísticos ou teatrais. Nós estudamos educação!
Sabemos mesmo é fazer plano de aula, projetos didáticos pedagógicos, discutir o
currículo, encontrar caminhos para a aprendizagem. Portanto, é preciso
enaltecer os professores que fazem estas coisas muitas vezes mirabolantes. Mas
que fique claro, não há demérito para o que não consegue. Fiquemos em paz
diante da certeza de que damos o melhor que temos e podemos.
Há que se dizer, o caos trouxe ainda muita produção
intelectual e deflagrou também novos aprendizados. Professores têm construído alternativas
lúdicas com muita criatividade, as aulas remotas desabrocharam flores em terras
de solo batido; os órgãos competentes têm demonstrado preocupação com os
protocolos de segurança; nunca se acompanhou tanto os dispositivos e
regulamentações legais. É um marco!
Durante a
quarentena, vale salientar, que nem tudo foi absolutamente perdido, nada foi mais
importante do que a aprovação do Fundeb Permanente (Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da
Educação), apesar da tentativa governamental
em desarticular. A união de todos os profissionais de educação permitiu que
saíssemos vitoriosos. Isto nos deixa ou deveria deixar um pouco mais
esperançosos. É fato!
Nesta pandemia, dentre tantas as lições, a maior
estar no descortinar da realidade, especialmente a da educação. Este desvendar
por vez é maquiado com os jeitos que nós, profissionais de educação, vamos
dando ao longo da nossa docência. E não está sendo diferente agora. Antes
dávamos jeitos na falta do lápis do aluno carente, no fardamento daquele menino
que não pode comprar; dávamos jeitos nas fantasias e materiais para os eventos
culturais.
Os jeitos agora têm a forma do contexto vivido. Continuamos
buscando incrementar incansavelmente atividades que possam ser atrativas para
nossos alunos nesse período confuso. Por causa das aulas remotas, muitos tivemos
que aumentar nossa internet, comprar um aparelho novo de celular para dá conta
às exigências que os aplicativos requerem; isto sem deixar de dizer que nos
“viramos” para dominar os desafios tecnológicos devido à ausência dos
investimentos em tecnologias digitais de informação e comunicação e da não
capacitação aos envolvidos no processo de aprendizagem.
E assim, sem os feitos, vamos nos acomodando e
dando nossos jeitos.
Fico pensando, diante dos feitos e jeitos, há
espaço para os defeitos? Pois bem, sim e como tem! Um deste está na
inconveniente exigência para que nós cumpramos com atividade remotas com uso
particular de nossa internet, nosso computador, nossa sala, nossa intimidade.
Outro ponto a ressaltar está na enganosa percepção
de que estamos democratizando o acesso ao conhecimento quando sabemos das
profundas desigualdades educacionais que afetam um grande número de estudantes
Brasil afora, sobretudo, os alunos que vivem nas periferias da cidade e no
campo.
Há defeito também no acompanhamento à saúde
emocional dos professores. Que acabaram ficando sem suporte psicológico nenhum
diante das angústias, tristezas, inseguranças e medos que o momento impõe.
Mas tudo está acabado? Não! De desafio em desafio
lá vamos nós!!!
Na verdade, ainda nos encontramos numa pandemia, o
que temos de certo é a incerteza; isto terá efeitos ainda sem precedentes nas
nossas vidas pessoais e profissionais. Está claro que precisaremos muito mais
do que dominar os conteúdos curriculares; haverá a educação pós-pandemia, e
esta já está em formatação; caberá a nós, saber o que faremos com ela. Podemos
reaprender, estamos em constante aprendizado. Não estamos seguindo de desafio
em desafio? Já não estamos nos refazendo enquanto docentes? Sim, senhores!!!
Para mim está claro que nunca a sociedade dependerá
tanto da educação como agora! E é nesta hora que ocuparemos nosso lugar de
heróis desta nação. Não há heroísmo fora da educação. Se há bons profissionais
de saúde que executam com primor o seu trabalho é porque tiveram bons
professores que os ensinaram para além da técnica. Provável e obviamente que conheceram
professores que fizeram do conhecimento a prática da liberdade, da superação de
desafios e da não opressão.
Na volta ao ensino presencial, as experiências
desse período de reclusão e da profunda ruptura aos modos de ensinar, servirá
ao um novo tempo e acredito que apesar de todas as nossas reais fragilidades a
educação será fortalecida, sem dúvida “Devagar iremos longe”.
Se uma “Andorinha só não faz verão”, o efeito
parceria, trabalho em equipe, será estratégia indispensável. Vamos sim precisar
nos apoiar uns nos outros e nos compreendermos como classe. Que isto seja um
compromisso entre nós.
Penso que é preciso repensar nossa trajetória
histórica e DAR a educação a importância que ELA merece. Está mais do que
provado que sem ela não haverá sociedade justa para todos e nem seremos capazes
de reerguer o mundo depois de uma pandemia sem precedentes, que de alguma
maneira afeta a todos.
Espero que o principal efeito desta quarentena na
educação seja pela busca de uma humanidade mais responsável, solidária e que
percebam o conhecimento como o único caminho capaz de nos colocar no eixo e
evoluirmos como gente, pessoas, seres humanos.
Para finalizar estas minhas reflexões destaco a
importância da instituição escolar para a efetiva transformação social. É no
contexto de insegurança, desesperança, de vulnerabilidade social que a educação
desponta como caminho para a mudança. Sem dúvida, não seremos nós que
encontraremos a cura da Covid-19, mas teremos a belíssima função de refletir
seus efeitos e auxiliar os estudantes para a vida em sociedade após longo
período de excesso de (des) informação e isolamento social.
Em suma, a pandemia nos trouxe
pessoalmente a possibilidade de realizar com mais tranquilidade uma autorreflexão,
nos permitiu vislumbrar com maior clareza aquilo que realmente nos importa,
aumentou o convívio familiar, reforçou amizades verdadeiras, que mesmo no
isolamento não se dissiparam, a pandemia também nos colocou diante da
fragilidade da vida, da imprevisibilidade dos processos que norteiam nossa
evolução enquanto sociedade, Nos desvelou uma humanidade em construção e
repleta de imperfeiçoes.
Profissionalmente, ressaltou
em nós a importância que temos como agentes transformadores de indivíduos em
formação, sabemos agora mais do que nunca que somos essenciais para nortear as
futuras reflexões sobre os (des)caminhos da humanidade. Nos permitiu enfim exercitar a empatia com os nossos colegas, a
gratidão com nossos especiais gestores e coordenadoras que se desdobraram para nos trazer
segurança, tranquilidade e alento quando nem eles mesmos tinham. Nos possibilitou
reconhecer de verdade que juntos somos sempre melhores. Então, não desanimemos,
pois, o novo normal nos encontrará mais fortes, mais maduros, mais dispostos a
prosseguir na missão que a escola encerra e que todos abraçamos.
Não é fácil, não está sendo
fácil, a própria vida é desafiadora e perigosa. O que eu quero deixar aqui hoje
é a ideia de que a diferença quem faz somos nós diante dos desafios que a vida trás.
Se inspirarmos um, apenas, um aluno já não terá valido a pena? Como numa
corrente do bem espero que não nos esqueçamos de que o todo é muito mais do que
a soma de pequenas partes e que coisas boas acontecem mesmo quando não estamos
vendo. Os próprios profetas diziam: Vejam!!! Quando eles mesmos não viram.
Esperança meus amigos!!! Resiliência, bom trabalho a todos!!! E que tenhamos um
ótimo retorno em momento oportuno.